Durante muito tempo eu achei que descobrir quem eu era seria a parte mais difícil da vida.
Engraçado como a gente muda.
Hoje eu posso dizer, com bastante tranquilidade, que sei exatamente quem eu sou. Conheço meus gostos, minha personalidade, minhas opiniões e o tipo de pessoa que quero ser. O curioso é que, mesmo tendo tanta certeza sobre quem sou por dentro, ainda tenho alguns conflitos quando olho para minha aparência.
Estou loira há quase dois anos.
E eu amo meu cabelo.
A praticidade, a forma como ele combina com a minha rotina e até a sensação de estar vivendo uma fase diferente da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, existe uma parte de mim que sente uma saudade enorme da garota dos cabelos coloridos.
A garota dos cabelos coloridos ainda mora aqui
Às vezes me pego olhando fotos antigas.
Cabelo preto com rosa.
Preto com vermelho.
Azul com preto.
Roxo com preto.
Cada fase tinha uma cor diferente, mas todas tinham algo em comum: eu não tinha medo de chamar atenção.
Também existia toda a estética.
Maquiagens elaboradas.
Delineados enormes.
Morceguinhos desenhados ao redor dos olhos.
Teias de aranha.
Sombras escuras.
Batom preto.
Corsets.
Saias longas.
Botas.
Acessórios por todos os lados.
Era uma época em que eu realmente me divertia montando cada detalhe.
Não era apenas uma roupa.
Era uma forma de expressão.
Hoje minha realidade é outra
A verdade é que a vida muda.
Hoje eu simplesmente não tenho mais tempo.
E, sendo completamente sincera, também não tenho mais paciência.
Fazer uma maquiagem artística durante uma ou duas horas já não parece tão divertido quanto antes.
Montar uma produção cheia de detalhes também deixou de ser prioridade.
Minha rotina mudou.
Meus interesses mudaram.
Minha energia também mudou.
Isso não significa que eu deixei de gostar da estética gótica.
Muito pelo contrário.
Ela continua fazendo parte de quem eu sou.
Só que hoje ela aparece de um jeito diferente.
Acho que fiquei mais discreta
Existe outro motivo que também pesa bastante.
Hoje eu não tenho vontade de ser o centro das atenções.
Moro em uma cidade pequena.
Quem vive em cidades menores sabe como qualquer coisa diferente chama olhares.
Antes isso até me divertia.
Hoje me cansa.
Quanto mais discreta eu consigo passar despercebida, mais confortável eu me sinto.
É estranho admitir isso porque, anos atrás, eu jamais imaginaria escrever essas palavras.
Hoje eu gosto da ideia de entrar em um lugar, resolver o que preciso e ir embora sem despertar curiosidade.
Sem comentários.
Sem perguntas.
Sem olhares demorados.
É como se eu tivesse descoberto que a paz vale muito mais do que a necessidade de impressionar alguém.
Ainda existe um toque diferente
Apesar disso, eu também não consigo ser completamente básica.
Sempre existe um detalhe.
Um acessório diferente.
Um anel.
Um colar.
Um brinco.
Uma bolsa.
Alguma peça que faça alguém pensar:
"Isso é bem a cara dela."
Percebi que não preciso usar vinte acessórios ao mesmo tempo para mostrar minha personalidade.
Às vezes um único detalhe já diz tudo.
Menos realmente virou mais
Antigamente eu adorava muitas pulseiras, muitos colares, vários anéis, correntes, harness, corsets, cintos diferentes e roupas cheias de informação.
Hoje, quando imagino vestir tudo isso junto, a única comparação que me vem à cabeça é uma árvore de Natal.
E isso não é uma crítica para quem gosta.
Na verdade, acho lindo quando vejo alguém usando esse estilo.
Só percebi que, para mim, ficou pesado.
Será que a idade muda a gente?
Às vezes fico brincando que a idade está chegando.
Não sei se é isso.
Talvez seja apenas maturidade.
Talvez seja cansaço.
Talvez seja uma mistura dos dois.
Também percebi que hoje tenho bem menos paciência para situações que antes pareciam normais.
Barulho demais.
Confusão.
Gente querendo cuidar da vida dos outros.
Discussões sem sentido.
Tudo isso me faz querer ir embora rapidamente.
Acho que virei o Eustácio
Existe uma comparação que sempre me faz rir.
Tenho a impressão de que estou virando o Eustácio, de Coragem, o Cão Covarde.
Aquele senhor rabugento que só queria ficar na dele.
Quanto mais penso nisso, mais engraçado fica.
Passei anos imaginando que jamais seria uma pessoa assim.
E, de repente, cá estou eu.
Valorizando silêncio.
Conforto.
Praticidade.
E evitando qualquer situação que me transforme no centro das atenções.
A personalidade continua exatamente a mesma
No fundo, percebi uma coisa importante.
Minha personalidade não mudou.
O que mudou foi a maneira como escolhi expressá-la.
Antes eu fazia isso através de uma produção completa.
Hoje faço através de pequenos detalhes.
Antes eu queria ser notada.
Hoje prefiro ser lembrada apenas por quem realmente importa.
E acho que isso também faz parte do crescimento.
Talvez amadurecer não seja abandonar quem fomos.
Talvez seja apenas entender que nossa essência não depende da cor do cabelo, da quantidade de acessórios ou da roupa que vestimos.
Ela continua ali.
Mudando de forma.
Se adaptando às fases da vida.
E, sinceramente, acho bonito perceber que ainda consigo reconhecer aquela garota dos cabelos coloridos dentro da mulher discreta que me tornei.
No fim das contas, continuo sendo eu.
Só em uma versão um pouco mais tranquila, um pouco mais prática… e, talvez, um pouquinho mais parecida com o Eustácio do que eu jamais imaginei.
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